terça-feira, 17 de agosto de 2010

E desejava, desejava

- Estou com sono.
- Então porque não dorme?
- Não quero te perder de vista.
- Não vai me perder.
- Como pode ter certeza?
- Não tenho.
(silêncio)
- Posso te pedir algo?
- Depende.
- De quê?
- Do que seja, ora!
- O que não pode ser pedido?
- Não sei.
- Então como pode dizer ‘’depende’’ se nem ao menos você sabe?
- Por isso mesmo. Por não saber.
- Mas é algo simples.
- Então fale.
- Vai falar que depende ainda?
- Vai perguntar logo ou ficar enchendo a minha paciência?
(silêncio)
E J. prendeu o choro. Como um menino que pede esmola em porta de bares, e é negado. Como se sua presença pequena e simples, fosse algo impuro e sujo. De fato. Sentiu-se pior que aquele menino. Sentiu um aperto no peito, como o estômago de uma criança que pede comida e é negada. Negada como o menino da esmola. Sujo e impuro. Não desejava nada demais. Poucas coisas, até. Pequenas. E quanto menores, mais impossíveis pareciam. Se conteve em prender o choro.
- Só ia pedir pra segurar minha mão.
- Ainda tem medo de dormir no escuro? Ora essa.. – o fitou com ar de zombaria e arrogância, sem sequer se perguntar o motivo do pedido, que mesmo parecendo besteira por ser tão simples, poderia ser realizado.
- Não.. Não tenho medo disso.
- Tem medo de quê então?
- De te perder de vista.
- Não vai.
- Como pode ter tanta certeza?
- Não tenho.
- Então porque diz que não...
- Sabe J., eu não tenho certeza de nada, e aposto que você também não, mas acho que quando desejamos algo com força ...
- Assim como eu desejo você?
Ela não se conteve e soltou um sorriso leve, de canto, simples.
- É J, é. Assim como você me deseja. Então, o que tanto queremos, pode se realizar.
- Então eu vou te ter?
- Não sei.
- Mas você não deseja?
- Deseja o quê?
- Ser minha.
- Eu não sei... Não da pra ter certeza.
- Não é pra ter certeza. É pra desejar. E não importa se você vai me desejar ou não, eu vou continuar com forças, sim, te desejando, quem sabe não se realiza?
B. sorriu de canto, sem saber o que falar. Sabia apenas que amor não podia ser unilateral. E era.
- Vamos dormir J. Essa ladainha toda me deu sono.
- Vamos. E vou sonhar com você.
- Como tem certeza? – rindo
- Não tenho. Mas quando desejamos algo com força, assim como eu desejo você, ela pode se realizar.
- Você não tem jeito mesmo.
Soltou um riso bem fraco, quase em silêncio. Estava pegando no sono. Talvez nem prestara atenção nas ultimas palavras dele. E dormiu.
- Boa noite! Sonha comigo... Quem sabe não se realiza?
Sorriu apenas, procurando não emitir som algum, e virou pro lado de B, buscando sua mao, e ao encontrar, entrelaçou seus dedos, como nós que não desatam. E desejava, desejava.

Um comentário:

Kélen ♀ disse...

Muito bom seu texto. Foi capaz de despertar sentimentos adormecidos...

Se puder, dê uma passada no meu blog: http://pansofiadistopica.blogspot.com/

Ainda está no começo, mas opiniões são sempre bem vindas.

=*