segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Essência

- Eu preciso que você não se perca. Entende? Não se perca de mim.
Ele me olhou.
- Eu ja te expliquei. Várias vezes. Essência supera aparência. Entendeu?
- É. - ele não conseguia falar nada.
- Ah menino! Eu preciso cuidar de você. Você nao percebe. Eu preciso que fique firme, pra que eu possa me firmar em você. Compreende? É como um ciclo, menino. E ciclos nao tem fim. E se você ficar firme, eu fico também. E talvez fiquemos bem. Entende? Um sendo o apoio do outro.
[...]
- Não fale nada. Só não se perca de mim.

sábado, 7 de agosto de 2010

Hoje eu chorei

Hoje foi o primeiro dia que chorei após ele ter ido. Hoje senti falta dele. Não sei se por costume de tê-lo sempre perto. Mas meu corpo chamava o dele, enquanto estava deitada naquela cama, que por tanto tempo esteve cheia. Cheia de vida. Cheia da gente. E hoje eu me deparei apenas com um corpo. O meu. Que continuava chamando o dele. E nesses chamados, percebi que o corpo de algum outro poderia saciar os prazeres da carne. Mas não saciaria o prazer da minha alma. Que estava ligada a dele, por muito tempo.
Ele lá, e eu cá. Pensando em mim? Talvez. Escrevendo pra ele? Mais uma vez.
Seria eu tão exigente assim? A ponto de não aprender a conviver com suas manias e loucuras? Mas tanto tempo se passou, e isso persistiu. E por diversas vezes tentei arrumar a casa, mas esquecia de fechar as portas e janelas para que o vento não entrasse e bagunçasse tudo. É, eu esqueci.
Mas qual será o propósito disso tudo, meu Deus? Qual? Mostre-o logo. Não agüento esperar. Me conformar fechando os olhos. Fechando os olhos para o que está a minha frente. E eu não quis enxergar. Fechei os olhos. Talvez eles de fato devessem ficar fechados. O que deveria abrir era o coração. Deixando o vento bater, arrancar as cortinas e portas. E junto com ela, entrar a poeira. Poeira do tempo. Do nosso tempo. Tempo. Muito nosso.
E o que ficou? Você lá, e eu cá. E essa saudade que aparece só depois de um tempo. Antes de dois em dois dias. Depois de cinco em cinto. Dez em dez. E agora de quinze em quinze.
Tempo! Sopra teu vento aqui dentro. Fazendo com que a saudade venha de ano em ano. Como uma saudade boa de sentir. Como uma lembrança. De um tempo que foi nosso. E agora não mais.
‘’Deixe estar, que o que for pra ser, vigora.’’ Que vigore nossa paciência. Nossa calma. Nossos sorrisos, mesmo distantes. Que vigore sempre o amor que carregamos aqui dentro. Adormecido algumas vezes. Mas que em algum tempo, despertará. E sorriremos de novo. Mas continuaremos sentindo saudade.
Você é a saudade boa que eu gosto de ter. Você foi àquela paciência. De amar por mim e por você. Você foi aquele silencio que por diversas vezes quis dizer tudo. Foi aquela brincadeira querendo acalmar a dor. Foi aquele coração que me amou, e amou. Mesmo eu duvidando que ele batesse. Você foi.
Hoje foi o primeiro dia que chorei após ele ter ido.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Rod Stewart - I Don't Wanna Talk About It

E morrer? O que seria? Sumir? Adormecer? Partir para cuidar a distancia? Ou para amenizar suas próprias dores? Só sei que voce se foi. E essa dor nao cessa. Nao passa. Nao acalma. É inevitável pensar em você e nao querer chorar. É triste quando penso em voce e me foge seu rosto. Sao nesses momentos que aperto. Aperto a mente. E voce volta sorrindo. Aquele sorriso tao raro. Tao lindo. Tao sincero! Dói. Todos os dias. Todas as noites. Durante todos os meses de lá pra cá. Durante todos os anos intermináveis, e completos de saudade. Saudade, aquela velha. Tenho vontade de chorar todos os dias, nao porque voce se foi - ta, por isso tambem, mas porque tive o melhor pai do mundo e ele nao está mais aqui comigo. Porque todos os dias sinto vontade de te abraçar. Sentir seu cheiro. Seu calor. Mas nao posso. Só nao posso. E o que me resta? Apenas lembrar de todos os momentos nossos. De todas as broncas. De todos os sorrisos. De todo cuidado que tinha comigo. Aaaaah! Que saudade! Falo com tanta força assim mesmo S-A-U-D-A-D-E! Aquela que nao vai passar nunca, e sinceramente nao quero que passe. Você é meu maior orgulho! Minha maior motivação a ir em frente! Meu maior amor! Porque por voce eu daria a vida. Mas nao importa mais, você está lá e eu cá. Nao te toco. Nao te sinto. Nao te ouço. Nao através do olfato, tato e derivados. Mas te sinto todos os dias da mais linda forma possivel. Te sinto dentro de mim. Tomando conta de todo meu peito. Pulsando forte. É, bem forte. Porque voce é o sangue que corre em minhas veias. Quente. Rápido. É o que me mantem viva hoje! Fugi totalmente do sentindo principal do texto. Mas tudo bem, queria só colocar pra fora o que estou sentindo. Sem ligar pra pontuação, acentos, se faz sentido ou nao. Eu só precisava, mais uma vez, dizer que nao-existe-amor-maior-no-mundo-que-o-nosso. Porque ele nao supera o tempo. A distância. A saudade. A dor. Mas porque ele me mostra todos os dias que somos capazes de superar a morte. Nao a evitando, porque quando chega sua hora, você simplesmente vai. Sem tempo de perguntar porque? ou pra onde? Mas mantendo viva a chama da nossa relação. Pai e filho! A mais pura de todas as relações. A mais verdadeira. A que mais se sente.
E o nosso amor move terra, céu e mar! Ele move o meu mundo! Ele move a minha vida!
Eu te amo mais que a minha própria vida!

I can tell by your eyes
That you've probably been crying forever
And the stars in the sky don't mean nothing
To you, they're a mirror.

I don't wanna talk about it
How you've broke my heart
If I stay here just a little bit longer
If I stay, won't you listen to my heart?
Oh, my heart... ♪

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Prosa patética

Nunca fui de ter inveja, mas de uns tempos pra cá tenho tido.
As mãos dadas dos amantes tem me tirado o sono.
Ontem, desejei com toda força ser a moça do supermercado.
Aquela que fala do namorado com tanta ternura.
Mesmo das brigas ando tendo inveja.
Meu vizinho gritando com a mulher na casa cheia de crianças,
Sempre querendo, querendo, querendo.
Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.
Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.
Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região.
No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança
Do hálito quente do outro.
A voz, o viço.
Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,
Expulsar de mim essa nossa senhora ciumenta.
Madona sedenta de versos. Mas tive medo.
Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito.
Ausência de espelhos que dissolve a falta,
A fraqueza, a preguiça.
E me faz vento, pedra, desembocadorua, abotoadura e silêncio.
Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,
Onde tudo é grave e único.
E me mantive quieta e muda.
E mais do que nunca tive inveja.
Invejei quem tem vida reta, quem não é poeta
Nem pensa essas coisas.
Quem simplesmente ama e é amado.
Lê jornal domingo.
como pudim de leite e doce de abóbora.
A mulher que engravida porque gosta de criança.
Pra mim tudo encerra gravidade prolixa das palavras;
Madrugada, mãe, ônibus, olhos, desabrocham
Em camadas de sentido e ressoam como gongos
Ou sinos de igreja em meus ouvidos.
Escorro entre palavras como quem navega um barco sem remo.
Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio.
Clarice diz que sua função é cuidar do mundo.
E eu que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada,
Não tenho bons modos nem berço.
Escrevo num tempo onde tudo já foi falado, cantado, escrito.
O que o silêncio pode me dizer que já não tenha sido dito?
Eu, cuja única função é lavar palavra suja,
Nesse fim de século sem certezas?
Eu quero que a solidão me esqueça.

Resolvi partir

Deixa que vá. Para longe. Ou para perto, talvez. Mas deixa que vá. Sem sentir, sem perguntar. Porque? Apenas deixa que vá. E voce segue junto. Uma outra estrada. Um outro caminho. Mais cansativo, apelativo. Com muito mais pedras e degraus. Mas vá. Voce vai, sem se perguntar porque. Voce apenas vai. Sem olhar pros lados. Você vai. Sem parar para descansar, ou saciar a sede. Voce vai. Você nao sente nada. Frio. Calor. Vento. Nao sente a chuva que te faz tropeçar e retroçeder. Você apenas levanta e recomeça tudo outra vez. Você vai. Sem saber onde dará aquela estrada. Você apenas vai. E sorri, nao porque conseguiu seguir só. Mas porque aquela tragetória cabia apenas um. Você.